27 Novembro 2006

Matéria Correio Popular ( Campinas )


Cidades (Publicada em 26/10/2006 \0
Sesi passa a cobrar taxa de alunos

Valores anuais variam de R$ 300,00 a R$ 2,5 mil de acordo com curso; pais reclamam de falta de diálogo para instituir cobrança

Adriana Leite
DA AGÊNCIA ANHANGÜERA
aleite@rac.com.br

A partir do próximo mês, os pais que matricularem seus filhos na rede escolar do Serviço Social da Indústria (Sesi) passam a pagar taxas anuais que variam de R$ 300,00 a R$ 2,5 mil. A medida implantada no sistema de ensino é parte de uma reestruturação interna e modernização da rede em São Paulo. Até este ano, os trabalhadores da indústria não pagavam nenhum centavo para manter os filhos de quatro a 14 anos estudando no Sesi.

A mudança desagradou os pais de alunos em Campinas e região e pode forçar muitos trabalhadores a buscar uma escola pública para os filhos. A direção do Sesi garantiu que a cobrança da taxa é necessária para que sejam implementados novos benefícios na rede de ensino. Os industriários reconheceram que o plano estabelece uma melhora no sistema educacional. Porém, eles reclamaram que não houve um debate acerca das taxas e nem a forma de implantação da cobrança.

“Nós tivemos uma reunião com a direção e eles passaram um documento solicitando que os pais informassem se vão manter os filhos no Sesi ou não. Quem optar pela permanência deve informar como prefere pagar a taxa”, relatou o técnico em lycra, Anthero José Vieira Filho. Ele disse que não houve diálogo com os trabalhadores. “Queremos discutir com o Sesi alternativas que eliminem a cobrança”, afirmou.

O técnico tem dois filhos que estudam em unidades da entidade. Vinícius, de 14 anos, cursa a 7ª série e está matriculado no Sesi-Santos Dumont, em Campinas. Felipe tem 11 anos e assiste às aulas na unidade em Valinhos. O pai optou por manter Vinícius, que em 2007 vai cursar o último ano do ensino fundamental, no Sesi e está a procura de uma vaga em colégio público para o mais novo. “No total teria que custear R$ 800,00 por ano. E eu não tenho condições. Além disso, não sei se a taxa irá subir no próximo ano”, comentou.

Reestruturação

A assessoria de imprensa do Sesi de São Paulo informou que a entidade vai efetuar mudanças para aprimorar o sistema de ensino no Estado e vai oferecer três novos produtos. A instituição vai implantar o Ensino Médio. Os estudantes poderão escolher, quando estiverem no segundo ano, se querem se matricular em um curso profissionalizante do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) sem a necessidade de prestar as provas aplicadas pela instituição.

O Ensino Fundamental terá opção de tempo integral. Depois do horário das aulas tradicionais, as crianças vão participar de atividades extra-curriculares, como dança e informática. O Sesi vai introduzir o ensino de nove anos. Serão aceitas matrículas na primeira série de crianças de seis e sete anos. Para investir nesse projeto, a entidade vai precisar de recursos. De acordo com a assessoria, o valor pago pelos trabalhadores eqüivale a 30% do total necessário para custear cada aluno.

A assessoria explicou que as taxas anuais serão cobradas da seguinte forma: Ensino Infantil (4 e 5 anos), R$ 700,00; alunos no Fundamental, fora dos Centros de Atividades (CAT) em período de cinco horas, R$ 300,00; estudantes do Fundamental dentro do CAT, em regime de cinco horas, R$ 500,00; no Fundamental dentro do CAT, em período integral, R$ 1 mil. O pagamento poderá ser efetuado em 10 parcelas. No Ensino Médio, os alunos pagarão 12 parcelas de R$ 250,00. Quem quitar os valores à vista terá 5% de desconto.

Os alunos cuja renda familiar per capita seja igual ou inferior a um salário mínimo (R$ 350,00) terão isenção do pagamento da taxa anual. Em todo o Estado, o Sesi tem 124 mil alunos em 211 escolas. De acordo com a assessoria de imprensa, a instituição vai investir R$ 160 milhões em 2007. Desse total, 70% será destinado à área de educação.

O NÚMERO

1,6 MIL CRIANÇAS estudam em escolas do Sesi em Campinas

Medida surpreendeu trabalhadores da indústria

A cobrança de taxa na rede de ensino do Sesi surpreendeu os trabalhadores. Além de pesar no bolso, a medida gera receio de que este seja um passo para abrir os colégios da entidade para filhos de profissionais de outras categorias. Os pais afirmaram que ouviram dos diretores das unidades da região que, se houver sobra de vagas, elas serão oferecidas a outras pessoas.

“O receio é que a escola se transforme em particular. Hoje nós não pagamos nada para manter os nossos filhos no Sesi. As empresas subsidiam as atividades”, afirmou o operador de máquina, Valdir Santos Lopes. Ele tem uma filha de 11 anos que estuda em Sumaré e deve pagar R$ 30,00 por mês de taxa. Além desse valor, o operador ainda tem o custo do transporte da casa até a unidade, que é de R$ 75,00.

O técnico da indústria química, Claudemir Antônio da Silva, reclamou da falta de diálogo. Para ele, a taxa é uma mensalidade. “Vou manter meu filho na escola, mas temo que nos próximos anos esse valor suba para um patamar que eu não consiga pagar”. O técnico comentou temer que o fato de existir a possibilidade de admissão de crianças cujos pais atuem em outros setores que não a indústria, gere uma distorção da função do Sesi. “O nosso temor é que filhos de pais com mais recursos ocupem as vagas de trabalhadores da classe baixa”, disse. (AL/AAN)

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