Uma
lei americana que pune o suborno de políticos e premia em mais de US$ 100 mil
os delatores está mudando a rotina de empresas brasileiras, preocupadas com
multas milionárias.
A Lei
Dodd-Frank começou a valer em agosto de 2011 para premiar delatores em 10% a
30% das multas acima de US$ 1 milhão, aplicadas nos EUA. Para isso, é preciso
fornecer informação exclusiva que comprove a propina a políticos, inclusive
brasileiros.
O
fundo para premiar delatores é de US$ 450 milhões.
A lei
vale para filiais de multinacionais ou empresas com ações na Bolsa dos EUA e
até mesmo para irregularidades das terceirizadas.
Antes
dessa lei, os EUA já puniam a corrupção estrangeira no FCPA (Foreign Corrupt
Practices Act), mas sem a delação premiada.
"Agora
a coisa começou a esquentar e é natural que a Dodd-Frank passe a ser mais uma
preocupação. A empresa se convence de que o prejuízo é maior se deixar correr
solto", diz o advogado André Fonseca, que atende empresas sobre a lei
americana.
Companhias
como CPFL e Braskem, com ações na Bolsa, e multinacionais como Qualicorp e
Kimberly-Clark já criaram normas internas para se prevenir e adotar uma agenda
corporativa ética.
A idéia
é se antecipar aos problemas, monitorando funcionários e gastos.
Há
canais internos para denunciar colegas -e assim ter o controle de potenciais
danos à empresa.
"Não
é colocar o funcionário na parede, é colocar a ética como uma parte
operacional. A denúncia não será feita aos EUA se aqui há um canal
isento", afirma Lucia Helena Magalhães, gerente de relacionamento da CPFL.
Funcionários,
fornecedores e terceirizados também são obrigados contratualmente a seguir a
legislação americana.
"A
complexidade das leis anticorrupção não alivia a responsabilidade. Deve-se
consultar o departamento jurídico antes de autorizar, oferecer, prometer ou
pagar algo de valor se houver dúvida", determina o código de conduta da
Kimberly-Clark.
A
responsável por segurança empresarial na Braskem, Olga Pontes, compara a lei
americana ao uso de cinto no carro, adotado ou por segurança ou para evitar
multas de trânsito. "A lei é uma forma de instrumentalizar a cultura
anticorrupção."
Um dos
reflexos da lei é o aumento de auditorias no Brasil.
Hoje,
metade da receita das investigações da PricewaterhouseCoopers no país já vem
por conta da lei dos EUA. Eram três investigadores em 2009. Agora, são 30.
Na
Ernst & Young Terco houve aumento de 100% nas investigações encomendadas
por estrangeiros para saber o risco de fechar negócios no Brasil.
Desde
o ano passado, 40 empresas discutem a lei no Instituto Brasileiro de Direito
Empresarial. Segundo o advogado Bruno Maeda, coordenador no instituto, a
prevenção pode reduzir a responsabilidade da empresa em caso de condenação.
MULTAS
MILIONÁRIAS
A
maior multa da história foi aplicada à Siemens -mais de US$ 400 milhões.
No
Brasil, a empresa montou um sistema de investigação com 45 pessoas que levou ao
afastamento do seu executivo-chefe no ano passado.
Em
2011, os EUA receberam 13 denúncias -nenhuma de brasileiros até o momento.
Sem
delação premiada, a Embraer está sob investigação por corrupção nos Estados
Unidos.
No
Brasil, no caminho contrário, a suíça Alstom foi alvo de suspeitas em contratos
com o Metrô de São Paulo.
FILIPE
COUTINHO – Folha de São Paulo


0 comentários:
Postar um comentário