TUDO
QUE FALA do humano e da vida que vive me toca a alma. E não precisa ser nada
rebuscado. Às vezes, as pessoas simples dizem coisas simples que são tão
preciosas e intensas, muito mais do que poemas herméticos de intelectuais
consagrados. Ao povo, lhe interessa entender. Por isso não gosto de quem fica jogando
pedra nas canções populares.
Claro,
sei muito bem que existe uma indústria da música, que coisas idiotas são criadas
para entorpecer e alienar. Mas existem canções, de poesia simples, que caem no
coração das gentes como um beijo molhado, e perduram. Isso tem de ser
respeitado. Afinal, quem pode se arvorar em juiz do gosto do outro?
Outro
dia morreu o Wando – um ícone popular - e muita gente falou de seus sucessos.
Outros criticaram e apontaram a mediocridade de suas letras, chamando de lixo o
que produzia. Bem assim se fez quando o sucesso de verão de Michel Teló invadiu
até a Europa. E é o que sempre dizem quando uma música “brega” estoura e
torna-se uma epidemia popular. Parece que o gosto da maioria não carece de respeito
algum. A mídia inventa sim, mas nada perdura se não tiver sido plantado no mais
profundo das gentes.
Ocorre
que as pessoas carregam uma sabedoria dentro delas, que está para além das
academias, das salas de arte e dos cafés intelectuais. Então, assim como um
poema do Chico Buarque, uma letra do Michel Sulivam pode dizer a mesma coisa,
só que de um jeito diferente, entendível por qualquer um.
O Chico
Buarque fala do amor com a sua bagagem de conhecimento e cultura formal,
adquirida nos melhores colégios, no convívio com os intelectuais e tudo mais.
Os compositores populares, sem a poética do Chico Buarque, falam desde uma
poética própria, da vida mesma, do que lhes brota da alma, de um jeito muito
intuitivo, e que penetra nas gentes que igualmente experimentam os mesmos
sentimentos. O amor, a separação, a traição, a dor, a alegria, essas coisas
abstratas, que hora ou outra se concretizam no cotidiano.
Eu
cresci ouvindo música sertaneja, canções de Ângela Maria, Agnaldo Timóteo,
Miguel Aceves Mejia e nunca pude perceber ali nada além da vida se expressando.
Cresci, estudei, consigo entender o hermetismo da poesia “cabeça”, mas, vez em
quando assoma em mim essa vontade de Jane e Herondi, José Augusto, Marcio
Greyck, Liu e Leo, Tonico e Tinoco, Nilton César, Fernando Mendes, Os Fevers,
Sérgio Reis, esses poetas populares cantados à exaustão nas serenatas mineiras
que embalaram minha juventude. Eu sou essa simplicidade brega, concreta,
imanente.
Com
todo o respeito, que se fodam os guardiões da poesia e da música rebuscada. Há
lugar para todas. Posso me deliciar com uma canção do Milton Nascimento, uma
sonata de Bach, e me emocionar com a dor do que foi abandonado no breguíssimo
clássico do Reginaldo Rossi, chorando junto ao garçom. Assim também são as
gentes. Gostar do Ovelha não quer dizer que não se pode curtir Maria Rita.
Basta lembrar que até o Caetano cantar uma música dele, o Peninha era brega.
Então, não há uma hipocrisia e um esnobismo aí?
Uma crônica de Elaine Tavares, jornalista.
Fonte: Brasil de Fato

0 comentários:
Postar um comentário