“Lutam para alcançar os fins e interesses imediatos da classe operária, mas no movimento presente representam simultaneamente o futuro do movimento”.
Marx e Engels, Manifesto do Partido Comunista, 1848
Esta breve citação do manifesto sintetiza os dois princípios
estratégicos da política socialista. Sem olhar a estes princípios, há camaradas
de luta política que avaliam as decisões e as lideranças políticas por uma
lógica limitadamente maquiavélica. Isso é um erro estratégico.
Maquiavel, pela sua reflexão política, era um republicano,
considerava a forma republicana a que mais convinha 'ao governo da cidade'.
Porém também era um profissional daquilo que hoje chamamos 'assessoria
política' e, assim sendo, as suas receitas para a conquista e manutenção do
poder por parte do príncipe têm esse caráter amoral. Fala em amor do povo, em
contentamento do povo, mas apenas na medida em que este seja instrumento para a
conquista e para a manutenção do poder do príncipe. A visão nua e crua da
política, inaugurada por Maquiavel, leva a que seja considerado um precursor da
ciência política. Considerar que o objetivo da política é a conquista, a
manutenção e o exercício do poder são acertados. Se esse é o objetivo de todos
os atores políticos, também o é para nós, socialistas; mas não é indiferente
para os socialistas o que se faz com o poder, a quem serve o poder. Por isso
convém falar nestes princípios estratégicos socialistas.
O acervo de lutas, reivindicações e conquistas do socialismo
foi crescendo com a experiência histórica das lutas populares e as próprias
formas da emancipação socialista evoluíram com essa prática. Se era claro para
Marx que a Comuna de Paris fornecia pistas para o que seria o poder dos
trabalhadores, se Gramsci não tinha dúvidas que não era preciso inventar formas
políticas porque a Revolução de Outubro tinha já criado o sistema soviético;
hoje, as formas políticas da emancipação socialista são também herdeiras das
lutas populares pelo Estado de direito, a democracia representativa, os avanços
de democracia participativa e o conteúdo social da cidadania.
O socialismo moderno é feminista, anticapitalista,
ecologista, democrata, antiimperialista e anti-racista. Foi a luta popular pelo
progresso que incrementou o acervo socialista de reivindicações e conquistas.
Este progresso programático em nada contradiz, antes aprofunda a base fundacional
do socialismo moderno. A teoria da mais-valia de Marx fundou o socialismo
moderno ao definir o antagonismo de interesses entre a classe trabalhadora e a
classe que se apropria da mais-valia, a burguesia. Esta diferença de campos
políticos, de interesses opostos entre exploradores e explorados, marcou todo o
socialismo moderno, incluindo todas as correntes políticas socialistas que
degeneraram, capitularam e abandonaram o socialismo. Apesar da sobre
determinação da luta de classes sobre o todo social, assumindo estas como motor
da história, importa sublinhar que embora o capitalismo parasite, impulsione,
se cruze com as mais diversas formas de opressão e alienação, estas não se
resumem à luta de classes. Para exemplo: o patriarcado é anterior ao próprio
capitalismo e há dimensões transclassistas da violência de gênero e do poder
patriarcal; isso não nega a luta de classes e a importância que a luta
anticapitalista tem para a luta feminista, mas também não subordina a luta
feminista à luta anticapitalista.
O argumento justo da não subordinação de lutas é muitas
vezes subvertido, traficado, por aquelas e aqueles que seguem a máxima
bernesteiniana de 'o movimento é tudo, o fim é nada'. Esta visão bernesteiniana
é antagônica aos princípios estratégicos socialistas modernos segundo os quais:
a esquerda socialista luta para alcançar os fins e interesses imediatos das
exploradas e dos oprimidos, mas no movimento presente representa
simultaneamente o futuro do movimento.
Quando, hoje, os neo-bernesteinianos nos dizem que em nome
da justa não-subordinação de lutas, a esquerda socialista deve aceitar
participar em governos dos partidos social-democratas com a sua política
anti-trabalhista, a sua política lesiva da propriedade pública e a sua política
da guerra; quando nos dizem isto, o que querem dizer os neo-bernesteinianos?
Querem perverter a não-subordinação de lutas, tornando-a o seu contrário. Isto
é, para os neo-bernesteinianos, o conteúdo classista e internacionalista do
socialismo é negociável contra os próprios princípios da melhoria das condições
atuais das exploradas e dos oprimidos e, principalmente, contra o futuro do
movimento emancipatório. De capitulação em capitulação, em nome do tal
neo-bernesteinianismo, é traído o presente, o passado e o futuro da luta
emancipatória. Como aceitar alianças com quem destrói conquistas de décadas ou
até de mais de um século de lutas populares?
Um partido político socialista não é um movimento social [de
objetivos limitados] traficado em partido, o seu objetivo é ser poder é
realizar (seja só, seja em coligação) um programa político que se enquadre nos
referidos princípios estratégicos. Não pode ser um 'partido-sindicato' que,
apenas preocupado com a luta econômica e sem um programa político, negocie
lugares de ministro e medidas avulsas do seu sector indiferente a políticas
conservadoras que venham no pacote da aliança governista. Do mesmo modo, não
pode ser como os verdes europeus que aceitam serem ministros de guerras
imperialistas. Um partido socialista também não pode ser um partido que é capaz
de suportar um governo anti-social em nome justos progressos em direitos civis
(como o casamento livre para todas e todos, uma adoção livre das 'fobias', uma
lei avançada para a identidade de gênero), esquecendo, por exemplo: estudantes
bissexuais, precários intersexuais, trabalhadoras lésbicas, gays desempregados
e pensionistas transexuais.
Todas e todos pela luta toda não é só um slogan, decorre
daqueles princípios socialistas. A melhoria da vida das exploradas e dos
oprimidos, o preenchimento dos seus interesses imediatos sem trair as outras
lutas e o futuro da luta toda, exige o empenho da política unitária na defesa
de cada uma das causas, com todas as aliadas e todos os aliados democratas que
se possam juntar nessa defesa. Assim, por exemplo, os conservadores
sociais-cristãos podem estar ao nosso lado em momentos concretos da defesa do Estado
social. Noutros momentos, os liberais da fúria privatizadora podem ser grandes
aliados contra os referidos conservadores, quando a luta é pela despenalização
do aborto. Não temos qualquer problema em ter conservadores ou liberais como
aliados em causas concretas e para o preenchimento dos interesses em jogo. Mas
esses fins são concretos e efêmeros, não são razões para fazermos governos com
uns ou com outros, o que trairia umas lutas em nome de outras. Do mesmo modo
que os partidos da Internacional Socialista que quiserem levar a cabo políticas
de dilapidação da propriedade pública encontrarão melhores parceiros nos
partidos da Intencional Liberal, e que encontrarão melhores parceiros de
governo nos Verdes Europeus para apoiar as guerras da NATO.
A esquerda socialista quer ser poder para cumprir o seu
programa político. Isso exclui alianças com sociais-democratas? Não. A questão
é alianças para quê, com que objetivo. O poder pelo poder, sem princípios, não
serve. São precisas tácticas e uma estratégia de luta, mas há princípios
estratégicos. E estes princípios não caíram do céu, nasceram da fusão do
pensamento socialista com o movimento popular, derivam do seu progresso e da
sua experiência.
O maquiavelismo é um pensamento limitado. E a célebre frase
'os fins justificam os meios' nem sequer é rigorosa com o pensamento de
maquiavélico. A lógica de Maquiavel não é finalista é consequencialista, não
são as intenções, mas os efeitos: 'os efeitos justificam os meios'. Note-se que
este consequencialismo é muito limitado, avalia tudo a posteriori com base nos
resultados. Fizemos x e se depois disso conquistamos ou mantivemos o poder,
'fazer x é bom'. Noutra circunstância, fizemos x e não preenchemos aqueles
objetivos, então 'fazer x é mau'. Naturalmente há o 'livro de receitas' O
Príncipe e obras semelhantes, que nascem também das experiências de conquista e
manutenção do poder, mas com esse objetivo a esgotar-se em si mesmo.
O critério maquiavélico não pode ser um critério para a
política socialista. Mas é o critério que consciente ou inconscientemente está
em muitas avaliações dos sucessos e insucessos da nossa política. O
maquiavelismo é fraco e corrompe. Fizemos x e subimos de votação, 'então x é
bom e a direção política é boa'. Depois se verifica que também em resultado do
mesmo x, mas mais adiante, a escolha do passado resultou em descida de votação,
então 'fazer x' e os dirigentes responsáveis por x já são maus. E isto pode
continuar indefinidamente. Pode servir para a táctica do curto prazo, mas é um
erro estratégico para o socialismo, uma irresponsabilidade.
A liderança política não pode estar refém da contabilidade
de curto prazo. A liderança política define rumos, direções a seguir. E a
avaliação das escolhas políticas não pode ter como único critério o resultado
imediato, como se tudo dependesse de nós, como se em política não houvesse
outros atores políticos e outros fatores. Até a táctica mais acertada aplicada
da forma mais acertada pode falhar. Quando uma táctica falha e/ou se revela
errada, não temos de deitar fora com ela toda a estratégia e muito menos os
princípios estratégicos.
Bruno Góis
Fonte: A Comuna











