Um indígena de cocar sendo carregado por policiais, no Supremo Tribunal Federal. Genocídio dos Guaranis Kaiowá no Mato Grosso. Xingu ameaçado pelo Belo Monte. Quéchuas e Guaranis, entre outras etnias bolivianas, lutam contra a Estrada que cortaria a Amazônia boliviana – projeto este financiado pelo BNDES. Mapuches no Chile resistem aos projetos hidrelétricos. Resistência dos Nasi, no Cauca na Colômbia. Invasão do Governo do General Otto Perez Molina em Santa Cruz de Barrillas, em Huehuetenango na Guatemala, declarando os indígenas em luta contra represas, como inimigo interno. As imagens são muitas e a cada passo de barbárie do capital na América Latina, reconhecemos uma luta anticapitalista dos indígenas.
O tema indígena é uma questão recorrente na esquerda latino-americana, e suas lutas, demandas, e caráter devem estar na ordem do dia para qualquer projeto que se pretenda ao mesmo tempo anticapitalista, revolucionário e propositivo de uma sociedade socialista e libertária. Diante disto, queremos iniciar uma série de artigos, sobre Movimento Indígena, Neodesenvolvimentismo e Lutas na América Latina. Aqui, trataremos da seguinte questão: Esquerda e Identidade Indígena são antagônicas?
A identidade indígena tem uma forte relação com a Floresta e com a Natureza. A partir disto, a maioria das etnias dos povos originários de América (Ásia e África também), constroem uma referência e uma cosmovisão. Linguagem que já foi fortemente reprimida pelos grupos de esquerda na América Latina, como sendo mística e a-materialista. O grande erro desta visão da Esquerda é não entender a necessidade de mediação com qualquer setor do povo que detenha uma linguagem distinta da sua. O marxismo busca pressupostos e também verdades, porém, é necessário reconhecer o caráter aberto destas mesmas verdades, da necessidade de uma constante abertura para o dialogo, dialogando com pensamentos de matrizes distintas, que nos podem abrir outras perspectivas. Aqui evitamos o dogmatismo e as Doutrinas de Kommitern’s
A primeira hipótese que desenvolvemos é: O indígena na América Latina faz parte da Classe Trabalhadora, e do Proletariado Amplo. Aqui, podemos desagradar tanto autonomistas, quanto ortodoxos. Porém, não é agradando que buscamos verdades revolucionárias.
O que queremos afirmar, é que do ponto de vista da Lógica do Capital, tudo aquilo que não está em cima, está em baixo, isto é, tudo que não é ele mesmo e seus gestores, deve ser explorado, aniquilado e virar propriedade, dinheiro e trabalho acumulado/trabalho morto. Os projetos do capital (projetos viáveis e lucrativos) buscam massificar e desapropriar todas as culturas, levando-as a virar cultura-massa. Esse é um movimento que vem da lógica intrínseca do acumular.
Porém, não há exploração sem luta e resistência. Todas as lutas encampadas impediram a aniquilação total do comunitário, consolidando uma lógica que busca escapar à massificação, ao Homem/Mulher-Despossuído de tudo (Cultura, Identidade e Propriedade) – Não seria uma hipótese improvável, pensar que sem as lutas, já estaríamos na barbárie.
Aqui das lutas comunitárias de movimentos populares nascem expressões urbanas singulares e fora da lógica do massificado, e do sem-sentido da alienação do capital. A luta dos povos originários na América Latina – que ainda mantém território, terra e uma linguagem própria – também resistem e criam simbologias fora do eixo dominante.
O indígena é proletário, pois é alvo do capital, que ao acumular capital, os explora e desapropria, ao mesmo tempo, que sua resistência representa também um feito anticapitalista. São processos simultâneos: Há muitas comunidades indígenas, que trabalham para si e para outros, mantém terras, porém, recorrentemente devem sair de suas montanhas para buscar trabalhos precários nas fazendas, nas cidades, mas ainda retornam as suas aldeias.
Sendo assim, o indígena deve ser visto como parte do Proletariado, num sentido amplo. Este conceito deve ser visto em seu movimento dialético: o Proletariado é, ao mesmo tempo, total, massa, único, e totalizante (movimento do capital), e diverso, antagônico e propositivo de novas sínteses – que buscam superar a ontologia proletária das necessidades. Neste sentido podemos visualizar o indígena, negado, abstraído de suas raízes e cores, feito gato e sapato, porém, Ser que contém o novo do novo, mas o novo do passado, que pode ser resgatado.
Uma esquerda que quer sair do gueto, que pretende ser parte do Ethos do Proletariado Amplo, deve estar enraizada nas lutas indígenas em toda América Latina. Para isto deve ser Indígena, escutar o que eles têm a dizer, e aprender com eles. Um Programa se faz com a sistematização das lutas, das simbologias e das culturas que se formam no combate do proletariado contra o Capital.
A segunda hipótese que deve fazer do militante um indigenista radical, e mesmo um indígena é: O Naturalismo Indígena nos fornece importantes pistas para um Programa de Transição. Aqui está um ponto nodal da Esquerda. Aprendemos sim, em todas as tentativas, mesmo que fracassadas, de organizar uma sociedade socialista. Não podemos negar todos os processos de socialização da propriedade privada. Porém, nossos Programas de Transição (Há mais de um?) devem conter, não apenas a mais avançada proposta tecnológica, produtiva e econômica, como fazer parte da lógica naturalista do indígena.
Devemos aprender com os indígenas para criar novas formas de distribuição, produção e consumo dentro de uma lógica que retome de um ponto de vista superior, o Naturalismo Humano, e o Humanismo Natural. Uma visão não-linear da história percebe que o capitalismo não só produziu progresso, como também regresso. O passado não é feito apenas de coisas “ultrapassadas”, dele poderíamos resgatar formas produtivas, de consumo e distribuição (de renda e de poder) e mesmo tecnológicas, que unidas com conhecimentos acumulados, poderiam criar outro patamar de relação entre a Humanidade e a Natureza.
O indígena nos fornece roteiros de um Socialismo do Séc. XXI, a partir de seu passado, mas também, a partir de seu presente, das formas de luta que aprendeu ao fazer resistência contra o capital. Rosa Luxemburgo nos ensina a pensar que a classe em luta nos oferece formas superiores de organização e distribuição do poder econômico e social.
Não queremos cair num discurso antiprodutivista, ou anti-tecnológico. Mas, as forças produtivas engendradas sobre a lógica capitalista, da forma-valor, é um pé no progresso, e outro no regresso. Isto é, a tecnologia cega do capitalismo engendra produção e destruição. É uma lógica que está interligada organicamente ao movimento de lucro, abstração e alienação do capital. Portanto, devemos desconfiar dos dados produtivistas de geração de energia (para quem?), que tal projeto é viável e outro não. Para investir em novas formas de produção realmente sustentáveis é necessário estar livre da tapa da mercadoria, que cega e apenas visa lucro. Para isto pensamos que o Olhar Indígena pode oxigenar nossa cegueira economicista. Este Olhar faz parte de sua Identidade, e para isto a Esquerda deve escutar e entender sua cosmovisão.
Tendo em vista, estas discussões de caráter teórico, da relação entre identidade indígena e esquerda, é necessário pensar o concreto do indígena na América Latina. Não conseguiremos fazer um exaustivo recorrido por todas as lutas. Porém, buscaremos os eixos econômicos que as geram. Mas, isto se discutirá em um próximo texto.
Por Venancio Guerrero