28 Maio 2012

Manifestações e mudanças "Chega de mágoa"

Olhando este vídeo hoje, que foi produzido em 1985 numa junção de vários artistas considerados a nata da música brasileira, fiquei meditando sobre as dificuldades de se lutar por alguma questão específica aqui no Brasil.

O projeto em questão foi para arrecadar fundos para o povo pobre e sofrido do nordeste e, ao contrário do que muitos pensam, a área – já refém da seca – foi vitima de um grande período de chuva, o que causou enchentes destruidoras. Cantores de várias vertentes foram convidados e solidarizaram-se com a proposta de ajudar os desabrigados.

E ai , qual foi a  mudança?

Lendo o noticiário, hoje pode se ver que existem vários estados com o mesmo problema enfrentado em 1985, Maranhão, Rio Grande do Norte,  Paraíba,  Minas Gerais, Sergipe,  Piauí e Acre, mas com certeza as manifestações não serão as mesmas, porque será?

Que fenômeno é este que mobilizou vários artistas, e até o maior veículo de comunicação na época para ajudar as vítimas da seca e da enchente? Será que existia uma preocupação maior com o coletivo? Era a efervescência das lutas sociais?

Na minha linha de raciocínio são várias as perguntas, e certamente de acordo com a sua linhagem política e intelectual serão várias e as mais diversas respostas. Porém a única solução que consigo visualizar na atual conjuntura em que vivemos é a seguinte:

Enquanto a população acreditar que seus governantes por si só mudarão esta realidade dura de quem trabalha, não avançaremos em nada!Mas sendo esta a nossa realidade, temos que exigir um maior investimento na área da educação, a campanha por 10% do PIB para educação é um bom começo.

Outro ponto é a distribuição de renda, é preciso diminuir a lacuna entre os mais ricos e os mais pobres.

A população precisa saber de sua força,e lutar, pois enquanto isso não ocorrer os trabalhadores deste país, independente de catástrofes naturais ou econômicas, ficarão a depender de manifestações de outros em sua salvaguarda.


Anthero Vieira.

(Segue abaixo o vídeo que me referi)


25 Maio 2012

Movimento Indígena, Neodesenvolvimentismo e Lutas na América Latina.


Um indígena de cocar sendo carregado por policiais, no Supremo Tribunal Federal. Genocídio dos Guaranis Kaiowá no Mato Grosso. Xingu ameaçado pelo Belo Monte. Quéchuas e Guaranis, entre outras etnias bolivianas, lutam contra a Estrada que cortaria a Amazônia boliviana – projeto este financiado pelo BNDES. Mapuches no Chile resistem aos projetos hidrelétricos. Resistência dos Nasi, no Cauca na Colômbia. Invasão do Governo do General Otto Perez Molina em Santa Cruz de Barrillas, em Huehuetenango na Guatemala, declarando os indígenas em luta contra represas, como inimigo interno. As imagens são muitas e a cada passo de barbárie do capital na América Latina, reconhecemos uma luta anticapitalista dos indígenas.


 O tema indígena é uma questão recorrente na esquerda latino-americana, e suas lutas, demandas, e caráter devem estar na ordem do dia para qualquer projeto que se pretenda ao mesmo tempo anticapitalista, revolucionário e propositivo de uma sociedade socialista e libertária. Diante disto, queremos iniciar uma série de artigos, sobre Movimento Indígena, Neodesenvolvimentismo e Lutas na América Latina. Aqui, trataremos da seguinte questão: Esquerda e Identidade Indígena são antagônicas?

A identidade indígena tem uma forte relação com a Floresta e com a Natureza. A partir disto, a maioria das etnias dos povos originários de América (Ásia e África também), constroem uma referência e uma cosmovisão. Linguagem que já foi fortemente reprimida pelos grupos de esquerda na América Latina, como sendo mística e a-materialista. O grande erro desta visão da Esquerda é não entender a necessidade de mediação com qualquer setor do povo que detenha uma linguagem distinta da sua. O marxismo busca pressupostos e também verdades, porém, é necessário reconhecer o caráter aberto destas mesmas verdades, da necessidade de uma constante abertura para o dialogo, dialogando com pensamentos de matrizes distintas, que nos podem abrir outras perspectivas. Aqui evitamos o dogmatismo e as Doutrinas de Kommitern’s

A primeira hipótese que desenvolvemos é: O indígena na América Latina faz parte da Classe Trabalhadora, e do Proletariado Amplo. Aqui, podemos desagradar tanto autonomistas, quanto ortodoxos. Porém, não é agradando que buscamos verdades revolucionárias.

O que queremos afirmar, é que do ponto de vista da Lógica do Capital, tudo aquilo que não está em cima, está em baixo, isto é, tudo que não é ele mesmo e seus gestores, deve ser explorado, aniquilado e virar propriedade, dinheiro e trabalho acumulado/trabalho morto. Os projetos do capital (projetos viáveis e lucrativos) buscam massificar e desapropriar todas as culturas, levando-as a virar cultura-massa. Esse é um movimento que vem da lógica intrínseca do acumular.

Porém, não há exploração sem luta e resistência. Todas as lutas encampadas impediram a aniquilação total do comunitário, consolidando uma lógica que busca escapar à massificação, ao Homem/Mulher-Despossuído de tudo (Cultura, Identidade e Propriedade) – Não seria uma hipótese improvável, pensar que sem as lutas, já estaríamos na barbárie.

Aqui das lutas comunitárias de movimentos populares nascem expressões urbanas singulares e fora da lógica do massificado, e do sem-sentido da alienação do capital. A luta dos povos originários na América Latina – que ainda mantém território, terra e uma linguagem própria – também resistem e criam simbologias fora do eixo dominante.

O indígena é proletário, pois é alvo do capital, que ao acumular capital, os explora e desapropria, ao mesmo tempo, que sua resistência representa também um feito anticapitalista. São processos simultâneos: Há muitas comunidades indígenas, que trabalham para si e para outros, mantém terras, porém, recorrentemente devem sair de suas montanhas para buscar trabalhos precários nas fazendas, nas cidades, mas ainda retornam as suas aldeias.

Sendo assim, o indígena deve ser visto como parte do Proletariado, num sentido amplo. Este conceito deve ser visto em seu movimento dialético: o Proletariado é, ao mesmo tempo, total, massa, único, e totalizante (movimento do capital), e diverso, antagônico e propositivo de novas sínteses – que buscam superar a ontologia proletária das necessidades. Neste sentido podemos visualizar o indígena, negado, abstraído de suas raízes e cores, feito gato e sapato, porém, Ser que contém o novo do novo, mas o novo do passado, que pode ser resgatado.

Uma esquerda que quer sair do gueto, que pretende ser parte do Ethos do Proletariado Amplo, deve estar enraizada nas lutas indígenas em toda América Latina. Para isto deve ser Indígena, escutar o que eles têm a dizer, e aprender com eles. Um Programa se faz com a sistematização das lutas, das simbologias e das culturas que se formam no combate do proletariado contra o Capital.

A segunda hipótese que deve fazer do militante um indigenista radical, e mesmo um indígena é: O Naturalismo Indígena nos fornece importantes pistas para um Programa de Transição. Aqui está um ponto nodal da Esquerda. Aprendemos sim, em todas as tentativas, mesmo que fracassadas, de organizar uma sociedade socialista. Não podemos negar todos os processos de socialização da propriedade privada. Porém, nossos Programas de Transição (Há mais de um?) devem conter, não apenas a mais avançada proposta tecnológica, produtiva e econômica, como fazer parte da lógica naturalista do indígena.

 Devemos aprender com os indígenas para criar novas formas de distribuição, produção e consumo dentro de uma lógica que retome de um ponto de vista superior, o Naturalismo Humano, e o Humanismo Natural. Uma visão não-linear da história percebe que o capitalismo não só produziu progresso, como também regresso. O passado não é feito apenas de coisas “ultrapassadas”, dele poderíamos resgatar formas produtivas, de consumo e distribuição (de renda e de poder) e mesmo tecnológicas, que unidas com conhecimentos acumulados, poderiam criar outro patamar de relação entre a Humanidade e a Natureza.

O indígena nos fornece roteiros de um Socialismo do Séc. XXI, a partir de seu passado, mas também, a partir de seu presente, das formas de luta que aprendeu ao fazer resistência contra o capital. Rosa Luxemburgo nos ensina a pensar que a classe em luta nos oferece formas superiores de organização e distribuição do poder econômico e social.

Não queremos cair num discurso antiprodutivista, ou anti-tecnológico. Mas, as forças produtivas engendradas sobre a lógica capitalista, da forma-valor, é um pé no progresso, e outro no regresso. Isto é, a tecnologia cega do capitalismo engendra produção e destruição. É uma lógica que está interligada organicamente ao movimento de lucro, abstração e alienação do capital. Portanto, devemos desconfiar dos dados produtivistas de geração de energia (para quem?), que tal projeto é viável e outro não. Para investir em novas formas de produção realmente sustentáveis é necessário estar livre da tapa da mercadoria, que cega e apenas visa lucro. Para isto pensamos que o Olhar Indígena pode oxigenar nossa cegueira economicista. Este Olhar faz parte de sua Identidade, e para isto a Esquerda deve escutar e entender sua cosmovisão.

Tendo em vista, estas discussões de caráter teórico, da relação entre identidade indígena e esquerda, é necessário pensar o concreto do indígena na América Latina. Não conseguiremos fazer um exaustivo recorrido por todas as lutas. Porém, buscaremos os eixos econômicos que as geram. Mas, isto se discutirá em um próximo texto.

Por Venancio Guerrero

10 Maio 2012

Crônica - Com medo de meninos

Por Elaine Tavares

ELES ENTRARAM NO ÔNIBUS como se fossem uma horda de selvagens. Gritando, se estapeando. Era o busão das seis horas da tarde, lotado, portanto. Como sempre acontece na hora “noa”, quem sobe nesse coletivo já sabe que fi cará bons momentos no engarrafamento do trevo do Rio Tavares. É, porque a duplicação da estrada só trocou a tranqueira de lugar. Então, o que se via eram os mesmos velhos rostos desolados, cansados da rotina diária de trabalho e esperas. Por isso a gritaria dos guris incomodou.

Mas eles não ficaram só nisso. Em pé, no corredor, cuspiam nas pessoas, davam gargalhadas, enfiavam a mão nas calças, tocando as “partes” e fi cavam encarando as mulheres. Não tinham mais que 13, 14 anos. Carregavam mochilas de marca, vestiam calças de marca e calçavam tênis de marca. Falavam alto e diziam obscenidades. Com eles estavam três gurias, que davam risadinhas abafadas a cada palavrão proferido. Eram seus heróis!

Uma senhora olhou feio para eles e um dos guris enfrentou: “O que é, velha?
Quer encarar?” Ela virou a cara, impotente. Outro tirou da mochila uma sombrinha, que girava, ameaçando bater na cabeça de quem estava no banco. Todos se mexiam, incomodados, mas com medo. Os piás intimidavam. Muitos deles são nossos vizinhos, moram na nossa rua e, quando estão sozinhos, parecem anjos. Mas, basta integrar o bando, se transformam, viram pequenos monstros, como tomados por maus espíritos.

“E daí, vai um fi ninho?” pergunta um deles, mostrando o baseado na mão. As gurias riem. “Sabe o que é bom pra gente ficar locão? Gin socado e Bacardi com gelo! As mina pira!” Gargalhadas. As pessoas se remexem, indignadas, mas ninguém ousa interromper a sessão de pavoneamento e violência verbal. Parece que aqueles aparentemente inofensivos guris podem, a qualquer momento, se transformar no bando do Alex, do Laranja Mecânica, capaz das mais absurdas maldades.

Os meninos da classe média emergente parecem poderosos demais. Eles formam insuportáveis grupos intolerantes, racistas e violentos. Intimidam as mulheres, agridem os pobres, proferem vitupérios, provocam os garotos tímidos e se acham os “reis do pedaço”. Ninguém tem coragem de intervir. Todos se olham, sem ação.

Perpassa pelo ônibus um arrepio de medo e um frêmito de indignação. E eles sabem disso e se aproveitam. Gritam mais alto, riem, contam vantagens. “Quebrei o guri de soco”, “Ninguém tira onda comigo”, “Vou arrasar geral”.

O tempo se arrasta e a tensão dentro do ônibus chega ao auge. Até que um rapazote de pouco mais de 18 anos resolve enfrentar. “Respeita a senhora aí, mané?” E o bandinho classe média: “Te mete com tua vida. Nós vamos te pegar, fica ligado!”.

Coisa de louco. Maior climão. Até que chega a parada do Castanheira, onde eles descem. Saem gritando, prometem vingança, fazem gestos com as mãos. Depois, ficam por ali, na frente do mercado, juntando-se a outros pequenos “monstrinhos”, que também gritam e falam palavrões. Coisa impressionante. Foi-se o tempo em que os meninos eram respeitosos e agiam com educação. Foi-se o tempo em que meninos jogavam bola e puxavam carrinhos, agindo e vivendo como crianças.

E o que mais espanta é que são mesmo meninos, quase crianças. Mas, tão cedo, já não têm limites. Comportam-se como loucos, são violentos, agressivos, provocadores. Que adultos serão? O que farão quando tiverem mais altura, mais força, mais comparsas? É nessa hora que a gente vê como é cada dia mais possível que pipoquem casos de homofobia, agressão gratuita, violência cega. Eles são poucos, mas agem de tal forma que paralisam, assustam, intimidam. As pessoas não sabem muito o que fazer, e os temem.

Fico a pensar: que mundo é esse em que os velhos temem meninos? Onde tudo isso vai dar? E nessa hora bate uma dor profunda e uma sensação de cansaço, desapontamento, desesperança.

Dias há em que até o meu Campeche parece escuro demais...

Elaine Tavares é jornalista.