24 Janeiro 2010

EM NOME DE DEUS



Laerte Braga

Samuel L. Jackson em PULP FICTION, filme do diretor Quentin Tarantino (1994), cita versículos bíblicos, salmos, antes de matar “devedores” do seu chefe, um traficante de drogas, um gangster a moda norte-americana. Mas dos tempos atuais. Sem aquela arrogância e pretensão de Al Capone. A de ser um cidadão benquisto pela sociedade cristã, democrática e capitalista.

O Reino Unido, como ainda teimam em chamar a Grã Bretanha, ex-potência imperial onde o sol nunca se punha, tem dez mil soldados no Afeganistão. O mesmo número que Barack Obama pensa mandar para o Haiti em missão de “ajuda”.

Os soldados do Reino Unido receberão fuzis com miras telescópicas que terão referências bíblicas. O cara pega o fuzil, mira e antes de atirar lerá um salmo para reforçar sua convicção cristã, democrática e capitalista.

Segundo o Ministério da Defesa da Grã Bretanha, 400 visores com mensagens bíblicas foram encomendados à empresa norte-americana Trijicon. Quando mirar no adepto do Islã alvo da “ajuda” cristã, democrática e capitalista, o soldado ira encontrar na mira a sigla JN8:12, em referência ao capítulo 8, versículo 12, do livro de João. O versículo é o seguinte – “então Jesus lhes falou outra vez, dizendo: Eu sou a luz do mundo; quem me segue não andará nas trevas e sim terá a luz da vida”.

Para a oposição ao governo de Gordon Brown isso reforçará o Talibã. Não vai deixar dúvidas que se trata de uma guerra santa. A diferença na boçalidade entre Saddam, por exemplo, ou Mubarak, ou qualquer governo de Israel, é só de estilo e lado, cada um tem o seu “deus”. O grande “deus” dos EUA começa a funcionar a hora que o sino da bolsa de Wall Street bate, é a catedral sendo aberta. Jorra “ajuda” pelo mundo inteiro.

A empresa norte-americana declarou que usa esse expediente há mais de vinte anos e os resultados têm sido satisfatórios.

A tecnologia da morte, o aperfeiçoamento da boçalidade em nome de Deus.

A “polícia” de Honduras, departamento norte-americano naquele país e que por lá chamam de forças armadas, quando derrubou o presidente constitucional Manuel Zelaya, recebendo ordens do comandante militar norte-americano na base de Tegucigalpa, entrou no palácio do governo para empossar o golpista Roberto Michelleti carregando um grande crucifixo.

No Brasil foi a mesma coisa em 1964. O comandante era um general quatro estrelas dos EUA, Vernon Walthers.

E todos receberam a comunhão das mãos do cardeal do país. Continuam matando opositores, torturando presos por crime de opinião, estuprando mulheres em aldeias, vilas e cidades pequenas, tudo em nome da democracia, do cristianismo e do capitalismo.

A propriedade privada.

João XXIII, um dos últimos papas (João Paulo II foi empregado de Washington, garoto da “propaganda santa”, cruel e vingativo com seus adversários, e Bento XVI é integrante decidido do IV Reich), numa de suas encíclicas, afirma que a luta armada pela garantia dos direitos básicos e fundamentais do homem é válida quando todos os outros recursos estiverem esgotados.

Por trás da afirmação existe o reconhecimento da condição básica do ser humano, do outro, da dignidade desse ser e do outro.

Guantánamo é um campo de concentração e o mundo, logo após a guerra e a ocupação do Iraque, viu em imagens que nem a grande mídia (venal) pode esconder, como eram tratados os prisioneiros nas prisões daquele país. Tratados pelos norte-americanos.

Um “louco” matou dez pessoas numa cidade do estado de Virgínia, terça ou quarta-feira desta semana. Isso é corriqueiro nos EUA. Alerta divino, via de regra todos por lá recebem, por isso Edir, o Macedo, conseguiu ser incorporado.

Os Estados Unidos são uma sociedade doente e exportam essa doença para o resto o mundo na ponta de suas baionetas (que nem usam mais). Agora manda miras telescópicas com salmos bíblicos.

Quando vejo jornalistas como Lúcia Hipólito ou Miriam Leitão tentando explicar porque é preciso aceitar o poderio dos EUA para que os haitianos sejam ajudados, não tenho a menor dúvida que a honra foi deixada do lado de fora. Ou como diz um amigo cínico, “coisa do tipo você me ajuda e aí pode fazer o que quiser”.

Bêbada, Lúcia Hipólito não conseguiu articular coisa alguma. Se a bebida destrava a língua de uns, trava a consciência de outros. Pode ser. Deve ser.

Sexta-feira, na cidade de São Paulo, as vacas da Cow Parade vão para as ruas homenagear os 456 anos da capital. Isso deve ser em honra ao governador José Collor Serra que em 2002 afirmou que estava vendo uma vaca pela primeira vez, ao vivo, já com mais de cinqüenta, quase sessenta.

Uma das “vacas” é de fibra de vidro e interage com celulares e as chamadas redes sociais.

Cerca de 57% da população de São Paulo, se pudesse, sairia da cidade. É o resultado de uma pesquisa divulgada no início dessa semana. E ainda querem, o esquema FIESP/DASLU, impor esse modelo ao Brasil via tucanos e DEMocratas.

Contam com as bênçãos do “deus” GLOBO e do profeta William Bonner, sua corte de Alexandres Garcias, a água é espargida pela sacerdotisa Xuxa e o culto começa à hora que se inicia o BBB.

Quem quiser pode comprar no sistema de tevê fechado e ficar o dia inteiro adorando os bezerros e bezerras confinados no “templo” em nome do cristianismo, da democracia e do capitalismo.

E durma tranqüilo, Barack Obama vela por todos nós. Se necessário for, manda “ajuda” em tempo recorde. E depois é só relaxar.

Breve nos intervalos comerciais do JORNAL NACIONAL, das novelas e do BBB, mensagens bíblicas para o gáudio e satisfação do Homer Simpson.

Pastor William Bonner, tem diferença nenhuma do outro, o Edir, falo do Macedo.

Nem do cara que matou dez em Virgínia, ou da empresa que produz miras telescópicas com mensagens bíblicas. Pode se matar de várias formas.

São doenças cristãs, ocidentais, democráticas e que garantem a propriedade privada. O resto é resto. Vieram do império. Vírus que nem o da gripe suína, mas muito pior. Deixa a turma apatetada, discando o celular para falar com o BBB ou com a vaca interativa.

Laerte Braga, jornalista.

Ilustração: AIPC – Atrocious International Piracy of Cartoons



21 Janeiro 2010

Os pecados do Haiti

A história do assédio contra o Haiti, que nos nossos dias tem dimensões de tragédia, é também uma história do racismo na civilização ocidental. Em 1803 os negros do Haiti deram uma tremenda sova nas tropas de Napoleão Bonaparte e a Europa jamais perdoou esta humilhação infligida à raça branca. O Haiti foi o primeiro país livre das Américas. Os Estados Unidos invadiram o Haiti em 1915 e governaram o país até 1934. Retiraram-se quando conseguiram os seus dois objetivos: cobrar as dívidas do City Bank e abolir o artigo constitucional que proibia vender plantações aos estrangeiros. O artigo é de Eduardo Galeano.


Eduardo Galeano
A democracia haitiana nasceu há um instante. No seu breve tempo de vida, esta criatura faminta e doentia não recebeu senão bofetadas. Era uma recém-nascida, nos dias de festa de 1991, quando foi assassinada pela quartelada do general Raoul Cedras. Três anos mais tarde, ressuscitou. Depois de haver posto e retirado tantos ditadores militares, os Estados Unidos retiraram e puseram o presidente Jean-Bertrand Aristide, que havia sido o primeiro governante eleito por voto popular em toda a história do Haiti e que tivera a louca idéia de querer um país menos injusto.

O voto e o veto


Para apagar as pegadas da participação estadunidense na ditadura sangrenta do general Cedras, os fuzileiros navais levaram 160 mil páginas dos arquivos secretos. Aristide regressou acorrentado. Deram-lhe permissão para recuperar o governo, mas proibiram-lhe o poder. O seu sucessor, René Préval, obteve quase 90 por cento dos votos, mas mais poder do que Préval tem qualquer chefete de quarta categoria do Fundo Monetário ou do Banco Mundial, ainda que o povo haitiano não o tenha eleito com um voto sequer.


Mais do que o voto, pode o veto. Veto às reformas: cada vez que Préval, ou algum dos seus ministros, pede créditos internacionais para dar pão aos famintos, letras aos analfabetos ou terra aos camponeses, não recebe resposta, ou respondem ordenando-lhe:


– Recite a lição. E como o governo haitiano não acaba de aprender que é preciso desmantelar os poucos serviços públicos que restam, últimos pobres amparos para um dos povos mais desamparados do mundo, os professores dão o exame por perdido.


O álibi demográfico


Em fins do ano passado, quatro deputados alemães visitaram o Haiti. Mal chegaram, a miséria do povo feriu-lhes os olhos. Então o embaixador da Alemanha explicou-lhe, em Port-au-Prince, qual é o problema:


– Este é um país superpovoado, disse ele. A mulher haitiana sempre quer e o homem haitiano sempre pode.


E riu. Os deputados calaram-se. Nessa noite, um deles, Winfried Wolf, consultou os números. E comprovou que o Haiti é, com El Salvador, o país mais superpovoado das Américas, mas está tão superpovoado quanto a Alemanha: tem quase a mesma quantidade de habitantes por quilômetro quadrado.


Durante os seus dias no Haiti, o deputado Wolf não só foi golpeado pela miséria como também foi deslumbrado pela capacidade de beleza dos pintores populares. E chegou à conclusão de que o Haiti está superpovoado... de artistas.


Na realidade, o álibi demográfico é mais ou menos recente. Até há alguns anos, as potências ocidentais falavam mais claro.


A tradição racista


Os Estados Unidos invadiram o Haiti em 1915 e governaram o país até 1934. Retiraram-se quando conseguiram os seus dois objetivos: cobrar as dívidas do City Bank e abolir o artigo constitucional que proibia vender plantações aos estrangeiros. Então Robert Lansing, secretário de Estado, justificou a longa e feroz ocupação militar explicando que a raça negra é incapaz de governar-se a si própria, que tem "uma tendência inerente à vida selvagem e uma incapacidade física de civilização". Um dos responsáveis da invasão, William Philips, havia incubado tempos antes a ideia sagaz: "Este é um povo inferior, incapaz de conservar a civilização que haviam deixado os franceses".


O Haiti fora a pérola da coroa, a colónia mais rica da França: uma grande plantação de açúcar, com mão-de-obra escrava. No Espírito das Leis, Montesquieu havia explicado sem papas na língua: "O açúcar seria demasiado caro se os escravos não trabalhassem na sua produção. Os referidos escravos são negros desde os pés até à cabeça e têm o nariz tão achatado que é quase impossível deles ter pena. Torna-se impensável que Deus, que é um ser muito sábio, tenha posto uma alma, e sobretudo uma alma boa, num corpo inteiramente negro".


Em contrapartida, Deus havia posto um açoite na mão do capataz. Os escravos não se distinguiam pela sua vontade de trabalhar. Os negros eram escravos por natureza e vagos também por natureza, e a natureza, cúmplice da ordem social, era obra de Deus: o escravo devia servir o amo e o amo devia castigar o escravo, que não mostrava o menor entusiasmo na hora de cumprir com o desígnio divino. Karl von Linneo, contemporâneo de Montesquieu, havia retratado o negro com precisão científica: "Vagabundo, preguiçoso, negligente, indolente e de costumes dissolutos". Mais generosamente, outro contemporâneo, David Hume, havia comprovado que o negro "pode desenvolver certas habilidades humanas, tal como o papagaio que fala algumas palavras".


A humilhação imperdoável


Em 1803 os negros do Haiti deram uma tremenda sova nas tropas de Napoleão Bonaparte e a Europa jamais perdoou esta humilhação infligida à raça branca. O Haiti foi o primeiro país livre das Américas. Os Estados Unidos tinham conquistado antes a sua independência, mas meio milhão de escravos trabalhavam nas plantações de algodão e de tabaco. Jefferson, que era dono de escravos, dizia que todos os homens são iguais, mas também dizia que os negros foram, são e serão inferiores.


A bandeira dos homens livres levantou-se sobre as ruínas. A terra haitiana fora devastada pela monocultura do açúcar e arrasada pelas calamidades da guerra contra a França, e um terço da população havia caído no combate. Então começou o bloqueio. A nação recém nascida foi condenada à solidão. Ninguém comprava do Haiti, ninguém vendia, ninguém reconhecia a nova nação.


O delito da dignidade


Nem sequer Simón Bolívar, que tão valente soube ser, teve a coragem de firmar o reconhecimento diplomático do país negro. Bolívar conseguiu reiniciar a sua luta pela independência americana, quando a Espanha já o havia derrotado, graças ao apoio do Haiti. O governo haitiano havia-lhe entregue sete naves e muitas armas e soldados, com a única condição de que Bolívar libertasse os escravos, uma idéia que não havia ocorrido ao Libertador. Bolívar cumpriu com este compromisso, mas depois da sua vitória, quando já governava a Grande Colômbia, deu as costas ao país que o havia salvo. E quando convocou as nações americanas à reunião do Panamá, não convidou o Haiti mas convidou a Inglaterra.


Os Estados Unidos reconheceram o Haiti apenas sessenta anos depois do fim da guerra de independência, enquanto Etienne Serres, um gênio francês da anatomia, descobria em Paris que os negros são primitivos porque têm pouca distância entre o umbigo e o pênis. A essa altura, o Haiti já estava em mãos de ditaduras militares carniceiras, que destinavam os famélicos recursos do país ao pagamento da dívida francesa. A Europa havia imposto ao Haiti a obrigação de pagar à França uma indemnização gigantesca, a modo de perda por haver cometido o delito da dignidade.


A história do assédio contra o Haiti, que nos nossos dias tem dimensões de tragédia, é também uma história do racismo na civilização ocidental.


Fonte: http://www.cartamaior.com.br/

04 Janeiro 2010

DESEJO (Victor Hugo)




Desejo primeiro que você ame,
E que amando, também seja amado.
E que se não for, seja breve em esquecer.
E que esquecendo, não guarde mágoa.
Desejo, pois, que não seja assim,
Mas se for, saiba ser sem desesperar.



Desejo também que tenha amigos,
Que mesmo maus e inconseqüentes,
Sejam corajosos e fiéis,
E que pelo menos num deles
Você possa confiar sem duvidar.
E porque a vida é assim,



Desejo ainda que você tenha inimigos.
Nem muitos, nem poucos,
Mas na medida exata para que, algumas vezes,
Você se interpele a respeito
De suas próprias certezas.
E que entre eles, haja pelo menos um que seja justo,
Para que você não se sinta demasiado seguro.



Desejo depois que você seja útil,
Mas não insubstituível.
E que nos maus momentos,
Quando não restar mais nada,
Essa utilidade seja suficiente para manter você de pé.



Desejo ainda que você seja tolerante,
Não com os que erram pouco, porque isso é fácil,
Mas com os que erram muito e irremediavelmente,
E que fazendo bom uso dessa tolerância,
Você sirva de exemplo aos outros.



Desejo que você, sendo jovem,
Não amadureça depressa demais,
E que sendo maduro, não insista em rejuvenescer
E que sendo velho, não se dedique ao desespero.
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor e
É preciso deixar que eles escorram por entre nós.



Desejo por final que você seja triste,
Não o ano todo, mas apenas um dia.
Mas que nesse dia descubra
Que o riso diário é bom,
O riso habitual é insosso e o riso constante é insano.



Desejo que você descubra,
Com o máximo de urgência,
Acima e a respeito de tudo, que existem oprimidos,
Injustiçados e infelizes, e que estão à sua volta.



Desejo ainda que você afague um gato,
Alimente um cuco e ouça o joão-de-barro
Erguer triunfante o seu canto matinal
Porque, assim, você se sentirá bem por nada.



Desejo também que você plante uma semente,
Por mais minúscula que seja,
E acompanhe o seu crescimento,
Para que você saiba de quantas
Muitas vidas é feita uma árvore.



Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro,
Porque é preciso ser prático.
E que pelo menos uma vez por ano
Coloque um pouco dele
Na sua frente e diga `Isso é meu`,
Só para que fique bem claro quem é o dono de quem.



Desejo também que nenhum de seus afetos morra,
Por ele e por você,
Mas que se morrer, você possa chorar
Sem se lamentar e sofrer sem se culpar.



Desejo por fim que você sendo homem,
Tenha uma boa mulher,
E que sendo mulher,
Tenha um bom homem
E que se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes,
E quando estiverem exaustos e sorridentes,
Ainda haja amor para recomeçar.
E se tudo isso acontecer,
Não tenho mais nada a te desejar.